Ontem de manhã deixei um cotonete estrategicamente posicionado na pia para que de noite, quando eu voltasse, pudesse olhar para ele de novo. Um jeito meu de me lembrar que o tempo passa.
Passou, voltei e ele estava lá, do jeito que deixei. Exatamente igual. Estátua.
Um perigo isso. Hoje vou testar com uma maçã.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
sexta-feira, 19 de junho de 2009
2 minutos e 1 fora
Não lembro quantos anos eu tinha, era moleca. Andava de bicicleta na rua e ia parando para conversar com alguém aqui, alguém lá. Sentava na calçada e passava o dia todo batendo papo, dando risada, sujando a roupa. Era época de trocar prioridades: ser a cestinha do time de basquete ou deixar a unha crescer? Demorei pra largar o visual camiseta e bermuda de cotton, mas já tinha jogado a franja para o lado. E já olhava no espelho mais do que 2 vezes por dia.
E justo naquele, deveriam ter sido umas 4. Saí com a bicicleta e a franja para o lado que nunca parava por causa do vento. No começo da rua tinha a Dani e, no final, o tal Alê. Cara de irmão mais velho. Metidinho, achei que me olhava demais. Que olhasse, eu não queria nada. Sentei na metadinha do banco, apoiei os braços no guidão e devolvi a encarada. Só por devolver. Só para abusar. Cerrei os olhos e segurei o ar irresistível de capa de revista. Levou uns 2 minutos até que ele parasse a conversa com a Dani e falasse comigo: “Por que você fica assim, quase fechando o olho e franzindo a testa? Fica tão feinha."
Crescer é cruelmente engraçado.
E justo naquele, deveriam ter sido umas 4. Saí com a bicicleta e a franja para o lado que nunca parava por causa do vento. No começo da rua tinha a Dani e, no final, o tal Alê. Cara de irmão mais velho. Metidinho, achei que me olhava demais. Que olhasse, eu não queria nada. Sentei na metadinha do banco, apoiei os braços no guidão e devolvi a encarada. Só por devolver. Só para abusar. Cerrei os olhos e segurei o ar irresistível de capa de revista. Levou uns 2 minutos até que ele parasse a conversa com a Dani e falasse comigo: “Por que você fica assim, quase fechando o olho e franzindo a testa? Fica tão feinha."
Crescer é cruelmente engraçado.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Rita.
Passei a infância toda dividindo o quarto com a minha irmã. O que criou zilhões de lembranças que, de tempo em tempo, se pirulitam na minha memória. E uma delas é a Rita.Rita era uma pomba que aparecia todos os dias no parapeito da nossa janela. O que para qualquer um seria uma mera pomba pousando por perto, para a gente era a visita diária da Rita.
Mas nem todo mundo em casa tinha pela Rita a mesma afeição que a gente tinha. Cada vez que ela aparecia na janela, o cachorro latia estridente e os papagaios gritavam todos os palavrões que conheciam. O que fazia minha mãe aparecer na cozinha e espantar a injustiçada Rita com a vassoura: “Ssshhhhhh! Shhhh! Passa!”. Todo santo dia.
Desde aquela época, Rita virou sinônimo de categoria para mim e para minha irmã. Qualquer pomba passou a se chamar Rita. Tinha uma Rita no meio da praça. Uma Rita deu um rasante na minha cabeça. As Ritas premiaram o carro que eu acabei de lavar e por aí vai.
Agorinha, por exemplo, uma Rita cruza o salão de espera na rodoviária. Ousada até. Vai passeando entre as pernas e maletas do povo sentado, pegando uma migalha aqui e outra lá, no máximo dando uma corridinha quando um pé chega mais perto do que o esperado.
O mais esquisito não é a desenvoltura da Rita, mas o fato de as pessoas nem darem bola pra ela. Nem um “Xô”. Nem um olhar enojadinho. Agora que a Rita resolveu voar, foi só porque não tinha mais o que comer aqui embaixo. Ou para encontrar a outra Rita no telhado e ficar lá de cima confabulando um ataque cirúrgico às nossas cabeças.
Se eu fosse um pouco menos maluca, a essa altura não estaria quase acreditando que aquela Rita era a nossa Rita.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Sobra
Tão pouco tempo. Tão poucas pessoas. Tão poucos motivos. Tão pouca surpresa. Tão poucos cheiros. Tão poucas fotos. Tão poucos doces. Tão pouco espaço. Tão poucas letras. Tão pouca música. Tão pouco pink. Tão poucos pés. Tão pouco ar. Tão pouco silêncio. Tão pouco sol. Tão pouco sou. Tão pouco sono. Tanta vontade.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Seu moço velho também quase levantando
Pelo jeito minha sina é encontrar pessoas em transportes públicos que estão quase descendo, mas não descem. Depois da Dona Japonesa, agora o Seu Moço Velho – e fedido, coitado. O ponto devia estar chegando, mas continuou chegando por muito tempo e ele lá: corpo torto, um pé à frente, exalando pelo ônibus a sua expectativa de descer.Claro que ele poderia só estar passeando. Ou quem sabe fazendo aquilo que eu já pensei tantas vezes em fazer, que é pegar um ônibus qualquer, descer em um ponto qualquer, pegar outro ônibus qualquer e assim por diante, só para ver onde vai parar. Mas o que não ornava é que ele parecia realmente concentrado em não perder o ponto, que passou mais de 20 minutos sem chegar. Tempo suficiente para eu exercer minha velha mania de adivinhar a vida curiosa de pessoas estranhas.
Por que ele pegou o ônibus? Porque decidiu aparecer de surpresa na casa do filho que não o visitava há mais de 6 anos. Desde a vez em que ele anunciou que só tomaria banho 2 vezes por mês. Já não tinha mais a velha, já não trabalhava, vivia sozinho. Banho para quem? Estava bem assim. A barba crescia e mal deixava a sujeira passar. Estava ótimo assim. Mas o filho, que nunca entendeu nada da vida, resolveu cortar relações. Pau mandado da garota que se maquiava todo dia, só podia ser. Queria ver a cara deles quando chegasse. E já estava quase lá. Era o próximo. Vai devagar, motorista. É esse aqui, logo ali. Só mais um bocado. Agora sim, está pertinho. Depois daquela árvore. Depois daquela esquina. Depois daquela casa. Será que já passou?
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Click. Click de novo.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Dona Japonesa quase levantando
Paraíso. Entro no trem cheio, mas dou sorte. A Dona Japonesa está ali, sentadinha na beira do banco, o corpo meio torto, prestes a levantar. Chego perto. Dia cansativo, pernas doendo, cabeça cheia, costas tortas. A Dona Japonesa quase levantando veio a calhar.
Vergueiro. Gente entra, gente sai, mas a Dona Japonesa continua ali. Deve ter se confundido. Tanto que continua na beirinha do banco, mão firme na sacola plástica apoiada no chão. Quase, quase levantando. Logo ali vaga um banco, mas sou fiel ao lugar da Dona Japonesa. Afinal, no próximo ela já desce.
São Joaquim. Porta abre, apito apita, porta fecha e nada de a Dona Japonesa se levantar. Nem para frente, nem para trás; nem para um lado, nem para outro. Só o quase de 2 estações atrás. Faz sentido: em que outra estação poderia descer a dona Japonesa senão na próxima?
Liberdade. Outras Donas Japonesas entrando e saindo, mas não a minha. Começo a achar que ela não se levanta porque não consegue. Falta força nas pernas? Será que ofereço ajuda? Atrás dela, mais da metade do banco vazio. Eu caberia ali até de perna esticada, mas seria falta de respeito com a senhora Dona Japonesa que, coitada, vai descer logo na estação mais cheia.
Sé. É. Teria sido difícil mesmo enfrentar a multidão. Vai ver por isso ela continuou ali, só com meia banda no banco, se preparando para descer na estação seguinte. Din-doum.
São Bento. Uma mão apoiada no banco, outra firme na velha sacola plástica. Deve ser professora de yoga a tiazinha Dona Japonesa, com as costas em 45 graus e pernas de agora eu vou. Mas não vai.
Luz. Já não faço idéia se existe outro banco vazio. Quero é ver se a Dona Japonesa pisca, se muda o corpo 1 cm de lugar, se dá algum sinal de impaciência com a estação que ela sempre acha que está chegando. E nada.
Tiradentes. Meu falta pouco para sentar é cada vez mais um falta pouco para a Dona Japonesa levantar. E ela continua ali.
Armênia. Eu só via de cima a Dona Japonesa. O cabelo quase todo preto, a pele quase enrugada, os óculos quase na ponta do nariz, o casaquinho quase fechado, a sandália quase sem salto. Pelo jeito vai descer comigo.
Tietê. Quase todo mundo desce. Já estou do lado de fora, vendo o trem ir embora com a Dona Japonesa. Dou risada sozinha e me apresso: o ônibus deve estar quase saindo.
Vergueiro. Gente entra, gente sai, mas a Dona Japonesa continua ali. Deve ter se confundido. Tanto que continua na beirinha do banco, mão firme na sacola plástica apoiada no chão. Quase, quase levantando. Logo ali vaga um banco, mas sou fiel ao lugar da Dona Japonesa. Afinal, no próximo ela já desce.
São Joaquim. Porta abre, apito apita, porta fecha e nada de a Dona Japonesa se levantar. Nem para frente, nem para trás; nem para um lado, nem para outro. Só o quase de 2 estações atrás. Faz sentido: em que outra estação poderia descer a dona Japonesa senão na próxima?
Liberdade. Outras Donas Japonesas entrando e saindo, mas não a minha. Começo a achar que ela não se levanta porque não consegue. Falta força nas pernas? Será que ofereço ajuda? Atrás dela, mais da metade do banco vazio. Eu caberia ali até de perna esticada, mas seria falta de respeito com a senhora Dona Japonesa que, coitada, vai descer logo na estação mais cheia.
Sé. É. Teria sido difícil mesmo enfrentar a multidão. Vai ver por isso ela continuou ali, só com meia banda no banco, se preparando para descer na estação seguinte. Din-doum.
São Bento. Uma mão apoiada no banco, outra firme na velha sacola plástica. Deve ser professora de yoga a tiazinha Dona Japonesa, com as costas em 45 graus e pernas de agora eu vou. Mas não vai.
Luz. Já não faço idéia se existe outro banco vazio. Quero é ver se a Dona Japonesa pisca, se muda o corpo 1 cm de lugar, se dá algum sinal de impaciência com a estação que ela sempre acha que está chegando. E nada.
Tiradentes. Meu falta pouco para sentar é cada vez mais um falta pouco para a Dona Japonesa levantar. E ela continua ali.
Armênia. Eu só via de cima a Dona Japonesa. O cabelo quase todo preto, a pele quase enrugada, os óculos quase na ponta do nariz, o casaquinho quase fechado, a sandália quase sem salto. Pelo jeito vai descer comigo.
Tietê. Quase todo mundo desce. Já estou do lado de fora, vendo o trem ir embora com a Dona Japonesa. Dou risada sozinha e me apresso: o ônibus deve estar quase saindo.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Vontade Sem Fim
Fui atrás desse livro só por causa de um trecho que eu já conhecia. Curiosidade de saber se ainda surte o mesmo efeito. E sim.
“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos e simplesmente ir ver.”
“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos e simplesmente ir ver.”
Mar Sem Fim – Amyr Klink
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Desdito.
Eu não desgosto de trabalhar. Claro que desgosto menos de não trabalhar. Mas o que eu desgosto de verdade é da necessidade de fazer de conta que se está trabalhando – desgostando-se ou não.
Simplificar urgente. Acabou, pode ir embora. Tem sol. Tem tempo. Tem jeito?
Simplificar urgente. Acabou, pode ir embora. Tem sol. Tem tempo. Tem jeito?
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Amor, tempo e doces.
Sei que, com o tempo, entendo mais sobre algumas coisas. Outras, simplesmente desisto de entender. E outras, poucas, ficam no limbo, na zona mais desconfortável, lutando por algum sentido na minha cabeça. E uma delas definitivamente é a velhice.
Só consigo entender a vida de 2 jeitos: pelo momento presente ou pela expectativa do futuro. Mas o que fazer quando a primeira alternativa pesa, cansa, machuca demais e a segunda simplesmente não é mais opção? Não vejo sentido. Sem revolta, sem medo, simplesmente não enxergo o sentido. Viver com as lembranças do que já aconteceu, mas sem a ansiedade do que vai acontecer: vou ter filhos? Netos? Mudar de país? De sexo? Os tempos verbais se invertem e sobram os “fiz”, “fui”, “conheci”, “vivi”.
Minha vó, como tantas outras, vive repetindo que está cansada de viver. Nunca respondo, tento não dar bola, mas no fundo torço para ser verdade. Que seja uma vontade dela. Que um dia a gente se canse mesmo da idéia de viver e possa dizer: pronto, estou satisfeito. Como uma jibóia fazendo a digestão.
Minha vó, quando fala, olha para o alto, como se o movimento ajudasse a lembrar o passado. Depois se perde nos pensamentos, ri, se emociona, balança a cabeça e volta para a realidade. Sabe que o tempo passou e não parece nem um pouco surpresa com isso.
Sempre que visito minha vó, saio esquisita por não sentir o que ela sente e não saber como conversar. Não me sinto à vontade para contar meus planos sabendo que ela não pode contar os dela. Dou meu carinho, meus abraços apertados, meus favores, um texto como esse (que ela não lê, porque não sabe), mas nem 10% de toda a minha atenção. Porque não sei como dar, e gostaria. De saber o que dizer, de mostrar que eu me importo sem parecer que tenho pena. No fim, abraço com medo de que amor demais mais machuque do que conforte. Mas como é tudo que tenho, é tudo que dou.
Não queria um final triste para essas palavras. Então lembrei que minha vó, quando ri, sacode os ombros. Que quando levo doce, ela esconde no armário e come escondido. Que quando fala no telefone, ela sempre termina do mesmo jeito: “Tuuuuudo de bom para você, Karina”.
São lembranças. No fim, eu também sei viver de lembranças.
Só consigo entender a vida de 2 jeitos: pelo momento presente ou pela expectativa do futuro. Mas o que fazer quando a primeira alternativa pesa, cansa, machuca demais e a segunda simplesmente não é mais opção? Não vejo sentido. Sem revolta, sem medo, simplesmente não enxergo o sentido. Viver com as lembranças do que já aconteceu, mas sem a ansiedade do que vai acontecer: vou ter filhos? Netos? Mudar de país? De sexo? Os tempos verbais se invertem e sobram os “fiz”, “fui”, “conheci”, “vivi”.
Minha vó, como tantas outras, vive repetindo que está cansada de viver. Nunca respondo, tento não dar bola, mas no fundo torço para ser verdade. Que seja uma vontade dela. Que um dia a gente se canse mesmo da idéia de viver e possa dizer: pronto, estou satisfeito. Como uma jibóia fazendo a digestão.
Minha vó, quando fala, olha para o alto, como se o movimento ajudasse a lembrar o passado. Depois se perde nos pensamentos, ri, se emociona, balança a cabeça e volta para a realidade. Sabe que o tempo passou e não parece nem um pouco surpresa com isso.
Sempre que visito minha vó, saio esquisita por não sentir o que ela sente e não saber como conversar. Não me sinto à vontade para contar meus planos sabendo que ela não pode contar os dela. Dou meu carinho, meus abraços apertados, meus favores, um texto como esse (que ela não lê, porque não sabe), mas nem 10% de toda a minha atenção. Porque não sei como dar, e gostaria. De saber o que dizer, de mostrar que eu me importo sem parecer que tenho pena. No fim, abraço com medo de que amor demais mais machuque do que conforte. Mas como é tudo que tenho, é tudo que dou.
Não queria um final triste para essas palavras. Então lembrei que minha vó, quando ri, sacode os ombros. Que quando levo doce, ela esconde no armário e come escondido. Que quando fala no telefone, ela sempre termina do mesmo jeito: “Tuuuuudo de bom para você, Karina”.
São lembranças. No fim, eu também sei viver de lembranças.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Dois mais dois podem ser.
Eu não diria que sou uma pessoa complexa, mas meus melhores amigos discordariam. Diriam que até tentando ser simples eu costumo ser complicada, o que até pode ser verdade. Para mim, as coisas não são lineares, proporcionais, racionais ou exatas. Entendo matemática, mas não raciocino com números. Mal me conformo com eles, são muito impessoais. Prefiro uma cor, uma palavra, um som, uma impressão, uma sensação. Aliás, guardo sensações, mas não guardo números.
Acontece que todo dia descubro situações em que eu gostaria, sim, de ser mais simplista. Como aquela vez boba: era segunda e eu tinha que trabalhar. Mas tinha chorado na noite anterior e, quando isso acontece, fico bem parecida com um sapo. Então foi creme, compressa, água quente, água fria e nada. Desisti, mas praguejei. No elevador, o Fá me lavou com seu único comentário: - Não sei porque não pode parecer que chorou se você chorou mesmo.
Glup.
Para mim, foi a revelação. Passei o dia todo com aquela urgência de simplificar tudo: os dias, as pessoas, a vida. Depois a ansiedade passou, mas a sensação continuou lá, para ressurgir cada vez que eu me lembrasse dela. Como hoje.
Acontece que todo dia descubro situações em que eu gostaria, sim, de ser mais simplista. Como aquela vez boba: era segunda e eu tinha que trabalhar. Mas tinha chorado na noite anterior e, quando isso acontece, fico bem parecida com um sapo. Então foi creme, compressa, água quente, água fria e nada. Desisti, mas praguejei. No elevador, o Fá me lavou com seu único comentário: - Não sei porque não pode parecer que chorou se você chorou mesmo.
Glup.
Para mim, foi a revelação. Passei o dia todo com aquela urgência de simplificar tudo: os dias, as pessoas, a vida. Depois a ansiedade passou, mas a sensação continuou lá, para ressurgir cada vez que eu me lembrasse dela. Como hoje.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Pérolas do busão II
- ENTÃO É ISSO, ROSIENE, O QUE NÓIS FAIZ?
- SEI NÃO. SE ROUBARAM ATÉ A CAUTERIZAÇÃO DA LENITA, QUE DIRÁ O CHOCOLAITE??
- SEI NÃO. SE ROUBARAM ATÉ A CAUTERIZAÇÃO DA LENITA, QUE DIRÁ O CHOCOLAITE??
Pérolas do busão I
Celular toca. E continua tocando. E toca mais e mais estridente, até que todos no ônibus tenham certeza que ele carrega um telefone móvel. Ou quase. Por via das dúvidas, melhor atender gritando. Melhor ainda: bora colocar viva-voz nesse negócio.
- ALÔ?
- Ô JOÃO, TÁ POR ONDE?
- TÔ QUI NO ÔNIBUS AINDA. VOU CHEGANDO. É QUE DEMOREI LÁ.
- TAMBÉM, QUEM MANDOU ENCHER O CU DE CACHAÇA?
- VOCÊ PAGA AS MINHA CONTA? TÔ VÉIO. PAGO EU, BEBO EU, ME DEIXA OCÊ.
Click. Próximo ponto.
- ALÔ?
- Ô JOÃO, TÁ POR ONDE?
- TÔ QUI NO ÔNIBUS AINDA. VOU CHEGANDO. É QUE DEMOREI LÁ.
- TAMBÉM, QUEM MANDOU ENCHER O CU DE CACHAÇA?
- VOCÊ PAGA AS MINHA CONTA? TÔ VÉIO. PAGO EU, BEBO EU, ME DEIXA OCÊ.
Click. Próximo ponto.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
O Raio
Aconteceu-me uma vez, num cruzamento, no meio da multidão, no vaivém. Parei, pisquei os olhos: não entendia nada. Nada, rigorosamente nada: não entendia as razões das coisas, dos homens, era tudo sem sentido, absurdo. E comecei a rir.
Para mim, o estranho naquele momento foi que eu não tivesse percebido isso antes. E tivesse até então aceitado tudo: semáforos, veículos, cartazes, fardas, monumentos, essas coisas tão afastadas do significado do mundo, como se houvesse uma necessidade, uma coerência que ligasse umas às outras.
Então o riso morreu em minha garganta, corei de vergonha. Gesticulei, para chamar a atenção dos passantes e – Parem um momento! – gritei – tem algo estranho! Está tudo errado! Fazemos coisas absurdas! Este não pode ser o caminho certo! Onde vamos acabar?
As pessoas pararam ao meu redor, me examinavam, curiosas. Eu continuava ali no meio, gesticulava, ansioso para me explicar, torna-las participantes do raio que me iluminara de repente: e ficava quieto. Quieto, porque no momento em que levantei os braços e abri a boca a grande revelação foi como que engolida e as palavras saíram de mim assim, de chofre.
- E daí? – perguntaram as pessoas. – O que o senhor quer dizer? Está tudo no lugar. Está tudo andando como deve andar. Cada coisa é conseqüência da outra. Cada coisa está vinculada às outras. Não vemos nada de absurdo ou de injustificado!
E ali fiquei, perdido, porque diante dos meus olhos tudo voltara ao seu devido lugar e tudo me parecia natural, semáforos, monumentos, fardas, arranha-céus, trilhos de trem, mendigos, passeatas; e no entanto não me sentia tranqüilo, mas atormentado.
- Desculpem – respondi. – Talvez eu é que tenha me enganado. Tive a impressão. Mas está tudo no lugar. Desculpem. – E me afastei entre seus olhares severos.
Mas, mesmo agora, toda vez (freqüentemente) que me acontece não entender alguma coisa, então, instintivamente, me vem a esperança de que seja de novo a boa ocasião para que eu volte ao estado em que não entendia mais nada, para me apoderar dessa sabedoria diferente, encontrada e perdida no mesmo instante.
Para mim, o estranho naquele momento foi que eu não tivesse percebido isso antes. E tivesse até então aceitado tudo: semáforos, veículos, cartazes, fardas, monumentos, essas coisas tão afastadas do significado do mundo, como se houvesse uma necessidade, uma coerência que ligasse umas às outras.
Então o riso morreu em minha garganta, corei de vergonha. Gesticulei, para chamar a atenção dos passantes e – Parem um momento! – gritei – tem algo estranho! Está tudo errado! Fazemos coisas absurdas! Este não pode ser o caminho certo! Onde vamos acabar?
As pessoas pararam ao meu redor, me examinavam, curiosas. Eu continuava ali no meio, gesticulava, ansioso para me explicar, torna-las participantes do raio que me iluminara de repente: e ficava quieto. Quieto, porque no momento em que levantei os braços e abri a boca a grande revelação foi como que engolida e as palavras saíram de mim assim, de chofre.
- E daí? – perguntaram as pessoas. – O que o senhor quer dizer? Está tudo no lugar. Está tudo andando como deve andar. Cada coisa é conseqüência da outra. Cada coisa está vinculada às outras. Não vemos nada de absurdo ou de injustificado!
E ali fiquei, perdido, porque diante dos meus olhos tudo voltara ao seu devido lugar e tudo me parecia natural, semáforos, monumentos, fardas, arranha-céus, trilhos de trem, mendigos, passeatas; e no entanto não me sentia tranqüilo, mas atormentado.
- Desculpem – respondi. – Talvez eu é que tenha me enganado. Tive a impressão. Mas está tudo no lugar. Desculpem. – E me afastei entre seus olhares severos.
Mas, mesmo agora, toda vez (freqüentemente) que me acontece não entender alguma coisa, então, instintivamente, me vem a esperança de que seja de novo a boa ocasião para que eu volte ao estado em que não entendia mais nada, para me apoderar dessa sabedoria diferente, encontrada e perdida no mesmo instante.
Italo Calvino - Um General na Biblioteca
sábado, 17 de maio de 2008
Linda
Existe uma linha muito fininha que separa o “se acomodar” do “não se incomodar”. “Se acomodar” é deixar como está por falta de interesse ou de disposição para mudar. “Não se incomodar” é estratégico: é relevar o que não se pode mudar ou ignorar quando é o melhor que se pode fazer – mas mantendo em mente que o que não agrada é passageiro.
Aprendi isso com uma garçonete filipina, enquanto morei em outro canto. A vida delas não é lá essas coisas mesmo. Longe da família por muito tempo, ganhando muito pouco, recebendo ordens mal-educadas, aguentando desaforo, sendo tratadas como inferiores por uma cultura machista e preconceituosa, para quem só servem as pernas compridas na saia curta do uniforme – e olha lá. Em todo canto, se ouve a voz doce e prestativa: “Yes, sir”, “Ok, ma’am”. E os saltos desengonçados se afastando, apressados.
Quando eu conversava com uma delas, cuidava para não deixar escapar um tom de dó. Exagerava na simpatia para forçar um bate-papo de igual para igual, mas desconfiava que o efeito era contrário: evidenciava nossas diferenças.
Todo almoço sempre foi essa aflição. Até que veio a Linda: uma garçonete filipina que não fazia idéia do significado do seu nome em português e que, quando eu contei, deixou escapar pela primeira vez um sorriso tímido no meio daquele rosto redondo.
Quando eu dizia “Oi, tudo bem?” para a Linda, não queria que ela respondesse – ou pelo menos não de verdade. Mas aquele dia, ela respondeu: “Tudo bem sim. Já que ficar triste não muda nada mesmo, decidi que a partir de agora vou ser feliz. O que você vai pedir hoje?”
Aquilo não soou como piada, era mesmo uma resolução. Quanto tempo teria levado até que ela pudesse acontecer assim, no meio da anotação de um pedido de almoço? Mas aconteceu. E porque a Linda decidiu ser feliz, eu decidi me lembrar sempre dela.
Aprendi isso com uma garçonete filipina, enquanto morei em outro canto. A vida delas não é lá essas coisas mesmo. Longe da família por muito tempo, ganhando muito pouco, recebendo ordens mal-educadas, aguentando desaforo, sendo tratadas como inferiores por uma cultura machista e preconceituosa, para quem só servem as pernas compridas na saia curta do uniforme – e olha lá. Em todo canto, se ouve a voz doce e prestativa: “Yes, sir”, “Ok, ma’am”. E os saltos desengonçados se afastando, apressados.
Quando eu conversava com uma delas, cuidava para não deixar escapar um tom de dó. Exagerava na simpatia para forçar um bate-papo de igual para igual, mas desconfiava que o efeito era contrário: evidenciava nossas diferenças.
Todo almoço sempre foi essa aflição. Até que veio a Linda: uma garçonete filipina que não fazia idéia do significado do seu nome em português e que, quando eu contei, deixou escapar pela primeira vez um sorriso tímido no meio daquele rosto redondo.
Quando eu dizia “Oi, tudo bem?” para a Linda, não queria que ela respondesse – ou pelo menos não de verdade. Mas aquele dia, ela respondeu: “Tudo bem sim. Já que ficar triste não muda nada mesmo, decidi que a partir de agora vou ser feliz. O que você vai pedir hoje?”
Aquilo não soou como piada, era mesmo uma resolução. Quanto tempo teria levado até que ela pudesse acontecer assim, no meio da anotação de um pedido de almoço? Mas aconteceu. E porque a Linda decidiu ser feliz, eu decidi me lembrar sempre dela.
sexta-feira, 28 de março de 2008
Eureka.
Foi em meio a uma discussão no rádio sobre a falta de fiscalização nas ruas – o que piora o trânsito e aumenta o nível de acidentes – que me ocorreu uma idéia imbatível. Que não resolveria o congestionamento, é verdade, mas facilitaria a vida de todos nós: o pagamento de multas por grau de burrice. Assim mesmo, foi burro, paga à sociedade pelo mal que causou.Burrice, nesse caso, é diferente de não saber qual é a capital da Finlândia ou como resolver logaritmos. Também não tem a ver com incapacidade. Burrice é a atitude burra, postura burra, comentário burro. Tanto que a pior burrice é a que vem disfarçada de inteligência. Aliás, como existem níveis de burrice, sugiro que sejam aplicadas tarifas diferentes, de acordo com a gravidade do acontecimento.
* Lapsos:
Categoria: leve.
Pena: acontece com todo mundo, pode ser resolvido com um simples pedido de desculpas ou uma boa dose de risada entre as partes.
Exceção: se houver a mera intenção de encobrir ou justificar a falta, a mesma pode ser considerada grave.
*Burrice plena/constante:
Categoria: grave.
Pena: R$ 50,00 por incidente, pagos ao prejudicado diretamente e imediatamente.
Exceção: a insistência é taxada em R$ 50,00 + 30% de juros por minuto de discussão.
* Burrice crônica:
Categoria: gravíssima.
Pena: R$ 300,00 por incidente, sem direito a argumentação + prestação de favores ao prejudicado (a serem determinados pelo mesmo).
Exceção: burrice aliada à falta de educação implica em taxa de R$1.000,00 + exílio por tempo indeterminado nas Ilhas Salomão.
Nada de olho por olho, dente por dente. Só o extremamente necessário para uma vida harmônica em sociedade. Viveríamos felizes e contentes; os inteligentes, os esforçados e os que não ajudam, mas também não atrapalham.
quinta-feira, 20 de março de 2008
Confesso.

Eu assisto American Idol. Na verdade, não perco um programa. Mais do que isso, já deixei de sair de casa para sentar no sofá e ficar vendo, um a um, os candidatos subirem no palco. Sinto na pele cada vez que um deles termina a apresentação, coração acelerado, platéia atenta, jurados prestes a disparar críticas ou elogios. Prendo os olhos na tela e tento adivinhar o que vem.
Meus amigos riem quando digo que o programa me emociona, me ensina, me enche de bom-humor. Mas é verdade. Gosto de ver como as pessoas se fragilizam ou se fortalecem com o que descobrem a seu respeito. Já vi tímidos se descobrindo, exibidos baixando a bola, homens e mulheres lidando com uma vida nova, esquisita, cheia de possibilidades. Sorriem nervosos, engolem seco, gritam, choram, engasgam, fazem dancinhas engraçadas para comemorar. São um bando de humanos que por um momento se vestem de heróis, mas na “hora H” voltam correndo para sua humanice.
Gosto é disso, de ver gente fazendo papel de gente. O meu predileto é David Archuleta, um garoto de 16 anos extremamente talentoso que nunca tenta ser mais do que ele simplesmente é. Até porque, não tenho certeza se ele entende muito sobre si mesmo: o quanto é cativante e a ternura que desperta com seu sorriso despreocupado. A idade ajuda na falta de malícia, na tolerância, na habilidade de escutar elogios sem se gabar e de receber críticas sem se sentir injustiçado. Vale o momento, a chance de estar ali. Prova disso é que, em todas suas apresentações, a platéia quase explode e, em cada uma delas, ele reage como se fosse a primeira vez.
É aí que tenho mais vontade de esmagar aquela figura, fazer uma bolinha e carregar para cima e para baixo comigo. Usar de chaveiro mesmo. Para toda vez que uma pequenice qualquer me pegar de surpresa, poder tirar ele do bolso, ver o sorriso de moleque que não sabe das coisas e lembrar de rir.
Quando crescer, quero ser que nem o David Archuleta.
Meus amigos riem quando digo que o programa me emociona, me ensina, me enche de bom-humor. Mas é verdade. Gosto de ver como as pessoas se fragilizam ou se fortalecem com o que descobrem a seu respeito. Já vi tímidos se descobrindo, exibidos baixando a bola, homens e mulheres lidando com uma vida nova, esquisita, cheia de possibilidades. Sorriem nervosos, engolem seco, gritam, choram, engasgam, fazem dancinhas engraçadas para comemorar. São um bando de humanos que por um momento se vestem de heróis, mas na “hora H” voltam correndo para sua humanice.
Gosto é disso, de ver gente fazendo papel de gente. O meu predileto é David Archuleta, um garoto de 16 anos extremamente talentoso que nunca tenta ser mais do que ele simplesmente é. Até porque, não tenho certeza se ele entende muito sobre si mesmo: o quanto é cativante e a ternura que desperta com seu sorriso despreocupado. A idade ajuda na falta de malícia, na tolerância, na habilidade de escutar elogios sem se gabar e de receber críticas sem se sentir injustiçado. Vale o momento, a chance de estar ali. Prova disso é que, em todas suas apresentações, a platéia quase explode e, em cada uma delas, ele reage como se fosse a primeira vez.
É aí que tenho mais vontade de esmagar aquela figura, fazer uma bolinha e carregar para cima e para baixo comigo. Usar de chaveiro mesmo. Para toda vez que uma pequenice qualquer me pegar de surpresa, poder tirar ele do bolso, ver o sorriso de moleque que não sabe das coisas e lembrar de rir.
Quando crescer, quero ser que nem o David Archuleta.
segunda-feira, 3 de março de 2008
A gente marca.
Quantas vezes e quantas pessoas. Incontáveis. Todas passando pela nossa vida, ganhando e perdendo importância, indo e vindo. E naquele dia de sol ou de chuva, depois de pouco ou de muito tempo, trombamos de novo com aquele alguém. Que não chegou a fazer falta, mas também não foi excluído de nossos pensamentos. Esteve ali. Talvez não com força suficiente para gerar uma ligação e muito menos uma visita; mas longe de ter se perdido.- Quanto tempo! Como estão as coisas? Nossa, o que você faz por aqui? Que bom te encontrar, que surpresa...
Muita comoção e pouco assunto. Claro, já faz tempo. E as coisas andam corridas. Ô, se andam. Mas enquanto tem trabalho, está bom, né??
Pois é. A conversa não acrescenta nada, mas também não podia deixar de acontecer. Fingir que não viu? Indecente. Cumprimentar de longe e passar batido? Falta de educação. Resta então aquele meio-termo. E meio-termo, por definição, é sempre frouxo.
Vem o final da conversa, pior parte. Se não abrir o semáforo, o celular não tocar ou não chegar a vez na fila do banco, um dos lados inevitavelmente vai encerrar o papo. E, para isso, vale qualquer desculpa: de mamadeira no fogo a horário no podólogo.
- Deixa eu ir que estou em cima da hora.
- Vai lá, a gente se encontra outra hora com mais tempo.
- Claro, a gente marca.
Ô se marca.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
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